CONVERSAS À JANELA - Frederico Marques e Maria Bonito - PASTORÍCIA

Atualizado: 9 de Jun de 2020



Pastorícia


Hoje conversámos com a Maria e o Frederico sobre PASTORÍCIA.

Frederico Marques e Maria Bonito são um jovem casal que se instalaram como agricultores, em outubro de 2019, na freguesia de Gosende, no coração da Serra do Montemuro. Ambos se licenciaram em Engenharia Agropecuária, na Escola Superior Agrária de Coimbra. Reconheceram no território do concelho de Castro Daire enormes qualidades para a prática agrícola e pecuária. Após reunirem condições que achavam essenciais para a sua atividade, decidiram rumar nesta nova aventura – dedicar-se à Pastorícia como profissão- que lhes tem proporcionado grandes experiências e amizades.


Frederico e Maria, quais foram as motivações que vos trouxeram à Serra do Montemuro para se dedicarem à Pastorícia, com a criação de cabras e vaca arouquesa?

A nossa principal motivação foi aplicar no terreno todos os conhecimentos que obtivemos na nossa formação, num negócio criado e gerido por nós. Por outro lado, vir para um local que estava um pouco subvalorizado foi outra das motivações que tivemos.


Quais foram os incentivos que tiveram e os procedimentos que tomaram para instalarem a vossa atividade?

Recorremos a ajudas disponibilizadas a todos os agricultores através do PDR 2020 e ainda recorremos a ajudas que o IFAP disponibiliza anualmente a todos os agricultores.


Como é ser pastor no século XXI? São iguais aos pastores de antigamente?

Da minha parte (Maria), acho que hoje em dia somos bem mais privilegiados que os nossos antecessores - apesar de que os princípios são os mesmos - levar os animais a procurar melhor e mais diverso alimento. O tempo também passa mais rápido agora com os telemóveis :) já temos outras ferramentas de trabalho mais avançadas que nos ajudam no dia a dia; e eu como ando mais com as vacas, também estou mais perto da aldeia e sempre vejo mais pessoas que o Frederico, o que não se torna tão monótono em andar todo o dia com os animais.


Quais são as condições e vantagens do território de Castro Daire para a prática da Pastorícia que não encontram noutros territórios?

A Serra de Montemuro que nos rodeia é altamente rica em flora autóctone, o que faz com que as nossas raças sejam mais valorizadas aqui também pela sua alimentação. Este concelho está também muito desertificado, o que faz com que haja muito espaço (área) disponível e pouca concorrência de mercado. Temos boas condições de trabalho, na medida em que este território ainda tem muito enraizada a criação de gado, fazendo com que tudo o que é necessário ao nosso trabalho esteja facilmente disponível.


Qual é o potencial da Pastorícia no território de Castro Daire?

O potencial desta área é muito grande devido às suas características climáticas, que proporcionam alimento para os animais durante todo o ano e com grande diversidade. Essas características da zona permitem produzir um alimento com qualidade elevada e que merece ser valorizado.


Que conselhos ou sugestões gostariam de deixar aos jovens para enveredarem pelo ramo da Pastorícia no território de Castro Daire?

Esta atividade é bastante desgastante o que faz com que seja imperativo o gosto pela área e o desejo de sucesso, de modo a vingar. Nós ainda agora estamos a começar, mas já tivemos que lidar com situações muito difíceis e que por vezes nos fazem duvidar da nossa escolha, mas o importante é que não se desista e que se tente sempre ver o lado positivo. Ter em conta que quando lidamos com animais, há muito poucas coisas que conseguimos controlar. Ser responsável e procurar bem antes de qualquer coisa, assegurar o escoamento do produto.


Maria e Frederico, muito obrigada por partilharem connosco o vosso testemunho e a vossa escolha de vida, que é de louvar. Reconhecer no território de Castro Daire as condições ideais para desenvolver o ramo da Pastorícia, ainda pouco explorado, mas com enorme potencial é o primeiro passo para compreender que, não obstante as dificuldades, com vontade e dinamismo, é possível optar pela Pastorícia como modo de vida e permanecer em Castro Daire, aproveitando e utilizando os recursos endógenos que a própria terra nos dá, o que permite organizar a vida sem “saír de casa”, criar empresas e negócios próprios, inverter a tendência de desertificação e contribuir para o desenvolvimento económico, social e cultural do território.


Fazer criação de gado neste território- vaca arouquesa, cabras, ovelhas- significa valorizar os recursos endógenos que nos qualificam e diferenciam dos restantes territórios, assegurando a continuidade da sua existência e da sua importância enquanto produtos e produtores de qualidade única. A qualidade que lhes é conferida e reconhecida só se concretiza num ambiente favorável e com alimento naturalmente rico e distinto, existente e permanente no território de Castro Daire.

Há incentivos financeiros e iniciativas educativas e culturais pelo país fora que demonstram, incentivam e promovem a Pastorícia como atividade profissional. Castro Daire deteve e detém condições privilegiadas para a prática da Pastorícia e ramos adjacentes, preservando a tradição e incentivando a inovação, como bem o promove e demonstra A Última Rota da Transumância.


O modo de vida e as escolhas de dois jovens na casa dos vinte anos, como o Frederico e a Maria, também são demonstrativos da relevância que este ramo de atividade tem e poderá ter. Eles trazem-nos esperança e inspiração para as próximas gerações, de quem esperamos responsabilidade social e de sustentabilidade, valorização do património e identidade cultural. Esperamos que muitos lhes sigam os passos!

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